Sociedade|Tocas|Cadastro|Exclusivo Sócios
 
Sociedade
Conselho Branco
 
JRR Tolkien|Arquivo|Links|Loja|Contato
 
Meio-elfos e Mortalidade - As Escolhas de Tolkien - Parte 1
Por Estela "Swanhild" Rodrigues

Tendo em vista o quanto da história contada em O Senhor dos Anéis diz respeito à participação dos pequenos e abnegados hobbits na Guerra do Anel, aludindo ao papel das pessoas comuns nos grandes atos que movem nossa história, esta posição de Tolkien pode com justiça ser considerada controversa. Tal posição só pode ser defendida se levarmos o legendário inteiro em conta e observarmos a gama variada de alternativas à mortalidade humana que Tolkien nos oferece: a estel dos homens não decaídos (Letters 212); a imortalidade dos Elfos; a longevidade serial dos Espectros dos Anéis; a vida eterna defendida pelos partidários da Antiga Esperança (Athrabeth Finrod ah Andreth, HoME 10); a imortalidade dos primeiros homens nos mitos dos humanos (Conto de Adanel, HoME 10).

Tal discussão, entretanto, merece um artigo à parte; pelo que, por hora, será posta de lado, em favor de um outro tema igualmente controverso: a mortalidade dos chamados meio-elfos e de seus descendentes. Estes foram certamente os indivíduos mais tocados pelo drama da mortalidade, dado o fato de que eles tinham ascendência mista (élfica, humana e maiarin). Na visão deles, havia sentido e justiça em que seu status de mortalidade tivesse alguma relação com os diferentes status das raças das quais eles descendiam; em consequência, era comum a rebeldia diante de um destino inescapável e indesejado frente a outras possibilidades. O caso mais conhecido é o dos reis de Númenor, que desejaram ser imortais como eram os Elfos, desejo esse que os levou no fim a invadir Valinor na tentativa de conquistar para si mesmos e para o seu povo a imortalidade que eles acreditavam vir daquela terra abençoada.

Em primeiro lugar, é preciso caracterizar o que são os meio-elfos no legendário e em que sentido Tolkien usou esse termo. Conforme a própria palavra relata, meio-elfo é em princípio um indivíduo que tem ascendência em parte élfica e em parte de alguma outra raça. No Tolkien, a ascendência mista mais importante a ser considerada é a élfica mista com humana. A ascendência maiarin, encontrada apenas nos descendentes de Lúthien, é relativamente simples de analisar.

Aqui nos deparamos com o primeiro problema, que é o fato de que esta definição, embora represente todos os indivíduos que Tolkien costumava chamar de meio-elfos, também representa muitos indivíduos que Tolkien jamais denominou desta forma, como os membros da casa de Dol Amroth e os descendentes de Elros. Todos esses tinham ascendência élfica e humana, mas eram considerados humanos, e não meio-elfos. De fato, desejamos definir uma classificação dos Filhos de Ilúvatar em três possíveis classes de acordo com a sua origem: humana, élfica ou meio-élfica. A razão disso é que Tolkien, da mesma forma que jamais denominou os descendentes de Elros de meio-elfos, também jamais se referiu a Elrond ou a seus filhos como elfos. Os chamados meio-elfos se diferenciam tanto dos elfos quanto dos humanos, e essa diferença é tão ressaltada pelo Tolkien, que classificar cada um dos meio-elfos de Tolkien ou como elfo ou como humano, usando o critério do status de mortalidade, seria artificial.

O status de mortalidade é o outro critério que vamos usar para classificar os Filhos. E aqui, convém observar que, a partir do momento em que consideramos uma classificação em três estados possíveis quanto à origem, enquanto que existem apenas dois status possíveis para a mortalidade, não são mais válidas as equivalências mortais=humanos e imortais=elfos. Isto porque, enquanto que continua válido que todos elfos são imortais, não é verdade que todos os imortais são elfos: Elrond é imortal e é um meio-elfo. Da mesma forma, Elros é um contra-exemplo correspondente para a outra equivalência, pois ele é mortal e é um meio-elfo.

Finalmente, outro critério que vamos observar para classificar os Filhos como elfos, meio-elfos e humanos de acordo com Tolkien é a época em que viveu cada indivíduo. Devemos levar a época em conta nesta classificação por razões internas e externas ao legendário, conforme explicamos a seguir.

Até o nascimento dos primeiros meio-elfos, Dior e Eärendil, não se havia esbarrado no problema que esses indivíduos representariam, do ponto de vista principalmente do status da mortalidade e destino final dos seus fëar após a morte: eles teriam o destino final e o status de mortalidade dos elfos ou dos homens? Essa indefinição permanece até o momento em que Eärendil chega a Valinor e os Valar decidem que ele terá o direito de escolher o próprio destino final e o status da mortalidade. Isto é particularmente problemático se consideramos o caso dos filhos de Dior, Eluréd e Elurín, que morreram antes da chegada de Eärendil a Valinor, e para os quais Tolkien jamais disse de modo claro qual foi o destino final de seus fëar. Embora se possa deduzir com facilidade que eles, assim como sua irmã Elwing, eram meio-elfos, deduzir alguma coisa a respeito do destino final de seus fëar não é tão simples. A posição que adotamos neste ensaio é que Eluréd e Elurín eram mortais, por serem eles descendentes de um mortal; essa posição será justificada mais adiante. Já Dior, embora tenha também, como seus dois filhos, morrido antes de Eärendil ir para Valinor, representa um problema de solução mais simples. Ele é um meio-elfo, conforme Tolkien afirma em dois textos tardios, um registro analístico da década de 50 (HoME 11) e o Shibboleth of Fëanor, de 1968 (HoME 12); e é um mortal, pois tanto seu pai, Beren, quanto sua mãe, Lúthien, eram ou haviam se tornado mortais quando se uniram.

Página 2/3

<< Anterior | Próxima >>

  Andúnië


© Conselho Branco 2002
Este site foi desenvolvido pela Berner Artes em parceira com o Conselho Branco.
Visualize com 800x600 pixels e 16k cores.