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A sombra de Húrin, o Inabalável
Por Estela "Swanhild"

Em nenhuma parte das andanças de Húrin, entretanto, o efeito da sombra de Húrin fica mais evidente do que em sua passagem por Brethil. A história do que aconteceu a Brethil quando Húrin Thalion se dirigiu para lá em busca de uma satisfação para a morte de sua esposa é contada na íntegra no volume 11 da “HoME series”, no texto “The Wanderings of Húrin”.

No Silmarillion conta-se que após clamar em vão por Turgon diante de Gondolin, Húrin cai em um sono de tristeza, e no sono ele ouve uma voz vinda de Brethil que lamentava, e lhe parece que a voz era de sua esposa. Húrin então dirige-se para Brethil, para a Pedra dos Desafortunados, que, conforme ele sabia, marcava o local da morte dos seus filhos. Ali ele encontra uma andarilha perdida nos ermos e ajoelhada diante da Pedra: Morwen, sua esposa. Após um breve diálogo, os dois permanecem juntos à Pedra e em silêncio pelo restante do dia, até que, ao cair da noite, Morwen toma-lhe da mão e expira.

“The Wanderings of Húrin” conta que, ao ver que sua esposa vagara solitária na fronteira das terras de seus parentes sem receber abrigo, a revolta de Húrin aflora afinal, e ele decide ir em busca dos senhores de Brethil para lhes pedir uma satisfação por aquela afronta cruel. No Salão dos Chefes em Obel Halad (Ephel Brandir), Húrin é desdenhado e escarnecido por Hardang, o atual senhor de Brethil. Ao reagir, ferindo Hardang, Húrin é acusado de tentar matar o senhor de Brethil dentro do Salão, pelo que ele é levado a julgamento diante de todo o povo de Brethil. A condenação nesse julgamento pode valer a Húrin a morte. Entretanto, Manthor, um parente de Hardang, protege Húrin e assume a sua defesa no caso.

A ação da sombra de Húrin se manifestará nas motivações de Hardang e de Manthor no decorrer da história. Hardang e Manthor são dois membros da casa de Haleth. Hardang é o novo senhor escolhido pelo povo após a morte de Brandir nas mãos de Túrin, filho de Húrin. Esta escolha havia sido feita em detrimento de Manthor, homem de índole serena reconhecido por alguns como mais sensato e de maior coragem e habilidade do que Hardang, embora fosse menos duro e atrevido. Embora não se estimem, os dois homens são capazes de conviver, respeitando-se apesar de suas diferenças. A chegada de Húrin e a colocação dos dois homens em lados opostos na disputa em torno da afronta a este, entretanto, despertam tanto em Manthor quanto em Hardang sentimentos e ações que vão mudar a história de Brethil para sempre. Se por um lado a afronta indigna a Húrin acorda em Manthor o ressentimento por ter sido preterido no passado em favor de um homem mesquinho e arrogante, por outro lado Hardang observa com um temor crescente a união entre seu parente, competente, decidido e querido pelo povo, e Húrin, um guerreiro lendário, liberto de Angband, um homem que não se intimidava diante de coisa alguma. O despertar desses sentimentos, ambição e ressentimento em Manthor, temor e mesquinhez em Hardang, é a marca da sombra de Húrin agindo sobre eles.

Face a esse conflito pessoal entre os dois homens, Húrin assume papéis diferentes do decorrer da história. Num primeiro momento ele é o instigador da discórdia. Uma vez que Húrin se dirige para Brethil em ira e com a intenção manifesta de lançar sobre o rosto do povo de Brethil a culpa pela morte da esposa, não há outro caminho possível para ele senão o de provocador. Hardang, entretanto, numa atitude pouco sensata, dá um fundamento à posição de Húrin ao desrespeitá-lo gratuitamente, e de ofensor potencial o transforma em ofendido. Quando Manthor assume a defesa de Húrin, indignado pela ofensa mas motivado também por suas próprias fraquezas, Húrin passa a assistir passivo ao que ocorre, e até o momento do julgamento os acontecimentos se desenrolam sem que ele tenha qualquer participação ativa neles. Sua comida é dopada e Manthor é impedido de vê-lo por ordem de Hardang. Manthor colhe silencioso as provas desses atos, e agora, enquanto Húrin dorme, alheio ao que acontece em sua volta, é a determinação de Manthor em enfrentar Hardang que cresce. É fundamental para o entendimento das posições de Húrin e de Manthor o detalhe de que Húrin deixa para lançar a queixa pelo abandono de Morwen sobre Hardang apenas no julgamento: não lhe interessa falar antes, e Manthor não se importa em saber o que trouxera Húrin a Obel Halad até que seja tarde demais. Os ressentimentos de ambos< Manthor e Húrin, trabalham juntos para o fim trágico da história.

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