A sombra de Húrin, o Inabalável
Por Estela "Swanhild"Dentre todos
os grandes heróis mortais da Primeira Era de Arda, Húrin, o
Inabalável é considerado o maior. Sua presença ainda jovem como
líder do povo de Hador, sua imagem solitária no passo do Sirion
como o último de seu povo a permanecer de pé derrubando trolls com
sua acha, sua resistência de 28 anos ao tormento de Morgoth, não
têm paralelo em todo o legendário. Ainda assim, a medida completa
da grandeza e do caráter deste guerreiro ímpar só pode ser
totalmente entendida quando seu destino e o plano de Morgoth
cumprem-se, e Húrin torna-se finalmente o responsável pela queda
dos últimos redutos livres de Beleriand: Brethil, Doriath e
Gondolin.
A parte de Húrin na destruição dos dois últimos reinos é bem
conhecida entre os leitores d’O Silmarillion. Entretanto, o
destino final do povo de Brethil e da casa de Haleth é menos
conhecido. Uma sombra seguia Húrin Thalion desde a sua saída de
Angband até o mar, onde ele encontrou afinal repouso e liberdade;
e em nenhum dos lugares por onde ele passou, esta sombra teve
efeitos mais evidentes e trabalhados por Tolkien do que em Brethil.
Durante o cativeiro, Húrin fora forçado por Morgoth a ver de longe
todos os acontecimentos que terminaram por destruir sua família; e
assim é que ele tomara conhecimento do desaparecimento de sua
esposa nos ermos infestados de orcs de Nargothrond, e das
circunstâncias em que se dera a morte de seus dois filhos em
Brethil. Mas, vendo através da mente e dos olhos de Morgoth, tudo
o que houvera de bom naqueles acontecimentos lhe havia sido
distorcido e ocultado, e tudo o que havia sido ruim havia sido
ampliado no seu entendimento. Assim, Húrin se amargurou pelo
destino de sua família, e passou a culpar todos os que haviam tido
contato com eles por não terem feito nada para impedir que o
destino terrível que pairava sobre eles se cumprisse. Essa
amargura constitui a sombra de Húrin, o Inabalável, que o segue e
motiva em sua andança, solitário, envelhecido, e no fundo cansado
da vida e da terra assombrada pela lembrança de dias mais felizes.
Essa amargura é alimentada em vários incidentes durante as
andanças de Húrin após a sua libertação de Angband. Depois de sair
de Angband, Húrin dirige-se em primeiro lugar para Hithlum, onde
constata que seu povo, depois de anos sob o domínio dos
Easterlings, não tem mais o brio que o tornara o mais aguerrido
dentre todas as tribos dos Edain. Desiludido com sua gente, Húrin
parte para Gondolin para pedir abrigo a Turgon. Diante da cadeia
montanhosa do Crissaegrim, sem poder encontrar a entrada para a
cidade (a qual havia sido bloqueada pouco antes por Turgon para
que não se pudesse mais entrar e sair do vale onde ficava a
cidade), Húrin clama aos ares na direção desta para que Turgon o
acolha, e não recebe resposta. Esses dois incidentes aprofundam a
sombra sobre Húrin. Esta sombra, como se pode ver, não deixa de
ter efeitos nos lugares por onde ele passa: em Hithlum, Húrin é
incapaz de organizar um levante de seu povo contra os Easterlings;
em Gondolin, a localização da cidade é revelada a Morgoth. |
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