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Ensaios: Existe o Mal Absoluto em Eä?
de Marcos "Elwë" Silva

No seguinte trecho da "Carta 156", Tolkien afirma algo que também corrobora a opinião de que todas as suas criaturas estavam sujeitas ao fracasso. Então, desta forma, Melkor apenas "fracassou"; ele não tinha o mal originariamente dentro de si:

Tolkien, na Carta 156, escreveu:
Citando:

"Mas nesta "mitologia" todos os poderes "angélicos" concernentes a este mundo eram capazes de muitos graus de erro e fracasso entre a completa rebelião satânica e malignidade de Morgoth e seu satélite Sauron, e a indolência de alguns dos outros poderes mais altos ou "deuses"."

O seguinte trecho do livro de Gênesis, na bíblia, também, é muito elucidativo sobre a origem de todos os seres, a qual não poderia em hipótese alguma ser má:

Citando:

"...Deus disse: - Façamos o homem à nossa imagem e segundo nossa semelhança, para que domine sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos e todos os animais selvagens e todos os répteis que se arrastam sobre a terra."

Ou seja, jamais qualquer criatura, tanto no Legendarium quanto em nossa realidade, poderia ser má, originalmente, desde o seu início! Vou me abster aqui de comentar a faceta "tirânica" e "cruel", muitas vezes exibida pelo Deus bíblico.

Melkor como um ser criativo – sinônimo de maldade intrínseca?

Tolkien, no Silmarillion, escreveu:
Citando:

"...Enquanto o tema se desenvolvia, no entanto, surgiu no coração de Melkor o impulso de entremear motivos da sua própria imaginação que não estavam em harmonia com o tema de Ilúvatar"

O fato de muitos considerarem Melkor "mau" em sua essência, dotado de um mal primevo, muitas vezes é derivado desta pequena passagem. Este pequeno trecho do Ainulindalë é a premissa para que os atos posteriores de Melkor sejam julgados e um veredicto muitas vezes insensato e leviano seja emitido, sem que, no entanto, os pormenores expostos acima sejam levados em consideração. Pormenores estes que concorreriam não para que Melkor fosse "absolvido", longe de mim afirmar, crer ou desejar tal coisa, mas para que ele e o "Mal" como um todo fossem observados sob uma ótica mais racional, crível e sensata. Para que o Mal, englobando Melkor em seu seio, e tendo este como seu representante máximo, fosse visto como algo decorrente da imperfeição de seres que jamais poderiam atingir o mesmo patamar de seu criador e, portanto, estariam sempre sujeitos a "falhas". 

Melkor, até este momento no Ainulindalë, quando tenta inserir seus próprios motivos na música, ainda não havia concebido nenhum pensamento mau. Nada pode ser dito que prove o contrário. Que mal haveria, em princípio, no fato de uma criatura dotada de inteligência e possuidora de livre-arbítrio, e também a mais poderosa dentre todos os Ainur, tentar fazer uso de sua criatividade (criatividade esta que lhe foi outorgada por seu "pai")? Claro, alguns podem dizer que o simples fato dele tentar entremear seus próprios motivos à música já é um fato negativo, e que depõe contra ele; que sua tentativa de "fugir" da "direção" imposta por Eru já era um indício de sua maldade intrínseca.

Mas deve-se tentar entender esta situação, que se mostrou danosa apenas no futuro, como um "deslize", como uma falha de caráter. Pois é dito no Ainulindalë que os Ainur somente compreendiam a parte da mente de Ilúvatar de onde provinham, isto é, seu entendimento era limitado, apesar de serem o que eram.

Vejamos o que Tolkien diz sobre essa limitação de entendimento, na Carta 131:

Tolkien, na Carta 131, escreveu:
Citando:

"O Conhecimento do Drama da Criação estava incompleto: incompleto em cada "deus" individual, e incompleto se fosse reunido todo o conhecimento do panteão. Pois (em parte para compensar o mal do rebelde Melkor, em parte para tudo completar em definitiva fineza de detalhes) o Criador não revelara tudo. A criação e a natureza dos Filhos de Deus eram os dois principais segredos."

Tolkien diz na passagem acima que Eru, em uma tentativa de "compensar" o "mal" de Melkor, havia "escondido" muitas coisas. Porém, não somente por isso, mas também devido ao fato de suas criaturas não serem capazes de compreenderem "tudo". Não podemos nunca dizer que Eru a tudo escondeu apenas para "proteger" o universo de possíveis maldades de Melkor; ele assim agiu para proteger "todas" as suas criaturas (inclusive Melkor), pois o conhecimento sempre deve ser proporcional à inteligência de quem o possui. Este deve ser obtido pelo próprio esforço do ser, e assim sendo, sempre vai estar na medida certa de cada mente, nunca demais.

Observando-se este fato sob esta ótica, somos levados então a concordar que o único capaz de atingir a perfeição em suas ações era Eru, pois ele era o criador, o detentor da soberania sobre Eä, o ser que "imaginou" e "deu vida" a "pedaços" de seu próprio pensamento. Então, como exigir "perfeição" de seres imperfeitos? Como exigir que um ser "falho" possa seguir incondicionalmente todos os sábios ditames do criador?

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